terça-feira, 23 de março de 2010

Artur Gomes - Entrevista concedida a Selmo Vasconcellos

















Pequena biografia:




Poeta, ator produtor cultural

Selmo. acho que este texto do Adriano Moura (mestre em literatura pela UENF), publicado no Jornal Folha da Manhã, na minha cidade, Campos dos Goytacazes, resume um pouco da minha biografia.

Poeta, ator, produtor, compositor, agente cultural, inquieto “cachorro doido”. É impossível falar da poesia de Campos dos Goytacazes sem mencionar um de seus principais militantes. Artur é um tipo de poeta sem “papas”, mas com “farpas” na língua. Seu texto é cortante da vertente política à amorosa. Artur é musical, intertextual.

Seus poemas pertencem a uma classe específica: a dos que precisam também ser falados em voz alta. Não é um poeta apenas para estantes, mas para o palco, bares, ruas, etc. E assim faz o poeta, que freqüenta várias cidades do Brasil declamando seus textos, participando de mostras e festivais.

Em Campos, foram muitos os eventos e as performances produzidos por ele. Desde mostras visuais de poesia brasileira a happening em ônibus e bares. O poema Alguma Poesia(abaixo), apresenta um eu-poético deslizando pelos prazeres e paisagens da urbana Rio de Janeiro dos anos 80. O verso conciso é também carregado de imagens sonoras seqüenciadas em rimas com aliterações e assonâncias como “porca” “Lorca” “Urca”.

Esse recurso aparece com freqüência em outros textos do poeta. Será uma das razões de tantas parcerias de Artur Gomes com músicos como Paulo Ciranda e Luiz Ribeiro?


ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

ARTUR GOMES – além de produzir poesia, eu sou ator e produtor cultural. Até 2002 fui Coordenador da Oficina de Artes Cênicas do CefetCampos – hoje IFF(Instituto Federal Fluminense de Educação Tecnológica). De 1999 a 2004 fui Diretor de Projetos Especiais da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, em Campos dos Goytacazes, onde criei e coordenei o FestCampos de Poesia Falada. Depois que me desliguei destas funções tanto no IFF como na FCJOL, tenho me dedicado exclusivamente a minha produção autoral, com poesia, música e teatro.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

ARTUR GOMES – Desde a adolescência, quando ainda no Curso Ginasial aprendendo Artes Gráficas, que a poesia principalmente começou a despertar a minha sensibilidade. Ao mesmo tempo que lia, queria logo compor aquele poema tipograficamente e imprimir. Nesse processo todo, as tintas, os tipos, a tipografia em si, me fascinava. E a possibilidade de ver impresso um texto, com outra cor, outro formato, outro suporte, me levava a querer ler mais poesia e a continuar imprimindo para delirar com o resultado final. Nessa época minhas leituras poéticas estavam ainda restritas a Olavo Bilac, Casemiro de Abreu, Castro Alves, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Cruz e Sousa e por aí vai... O que estava lendo não era o mais importante para mim naquele período, e sim o que poderia fazer com aquilo tipografimacamente.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

ARTUR GOMES – :

Um Instante no Meu Cérebro – poesia – 1973
Mutações Em Pré-Juízo – poesia 1975
Judas O Resto da Cruz – teatro - 1976
Além da Mesa Posta – poesia – 1977
Jesus Cristo Cortador de Cana – cordel – 1979
Ato 5 – coletânea poética – 1979
Boi-Pintadinho – auto popular – teatro – 1980
Mostra Visual de Poesia Brasileira – cadernos de poesia contemporânea – 1983 a 1993
Suor & Cio – poesia 1985
Couro Cru & Carne Viva – poesia – 1987 – Prêmio Internacional de Poesia – Universidade de Laval – Quebec – Canadá
20 Poemas Com Gosto de Jardinópolis & Uma Canção Com Sabor de Campos – poesia - 1990
Conkretude Versus ConkrEreção – poesia – 1994
CarNAvalha Gumes – portifólio - poesia visual –1995
Retalhos Imortais do SerAfim – poesia visual - 1995
CardioGrafia da Pele – poesia visual – 1996
BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas – poesia.prosa – 2000
Mendigos Jantam Brecht – teatro - 2002
Fulinaíma Sax Blues Poesia – CD com música instrumental e poesia falada e cantada - 2002

Inéditos:
SagaraNAgens Fulinaímicas – livro
Juras Secretas – livro
Fulinaíma Outras Vozes Outras Falas - CD

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?

ARTUR GOMES – acredito que todo viver é uma forma de impacto capaz de produzir um efeito poético. “Viver é muito perigoso.”. Esta frase do Guimarães Rosa, dita por Riobaldo em Grande Sertões Veredas, a todo momento me deixa impactado e em profundo estado de tensão poética. Quando em Brasília, nos anos de chumbo, lá por volta de 1968,, servindo no quartel Dragões da Independência, comandado à época pelo coronel João Batista de Oliveira Figueiredo, esta frase tinha para mim todo o significado de um país vivendo naquele momento. Muitos foram os poemas que vieram depois com reflexões desse tempo vivido, alguns tocando nas feridas, cicatrizes que ficaram nas entranhas, e recentemente já na década de 2000 escrevi o poema SagaraNAgens Fulinaímicas, que é uma referência não só a Guimarães Rosa, mas também a dois outros grandes mestres da poesia brasileira, Drummond e João Cabral de Melo Neto.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os poetas que você admira ?

ARTUR GOMES – são muitos, mas vou ficar com os que quase sempre me recorro, para incluir no meu repertório de performances, que são: Fernando Pessoa, Paulo Leminski, Torquato Neto, Mário Faustino, Drummond, João Cabral, Baudelaire, Salgado Maranhão, Ademir Assunção, Celso Borges, Camões, Dante e por aí vai...

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

ARTUR GOMES – ler muito e exercitar sempre, escrever sempre, e nunca se deixar levar pelas facilidades, nunca acreditar que está fazendo o melhor, o melhor é o que ainda não foi escrito, é o que está sempre por vir, essa é a grande busca do poeta, alcançar o impossível, o imponderável, o inatingível, mas que é sempre possível se acreditarmos que podemos chegar lá, neste lugar da saudade, do amor do ódio, da dor imensa da alegria. Nós somos multidão e ao mesmo tempo solidão. O poeta não é exatamente aquele que fala só com a sua própria voz, muita vezes emprestamos a nossa para aqueles que não tem, e essa é a nossa grande função.

POESIAS

SagaraNAgens Fulinaímicas

Guima meu mestre Guima
em mil perdões eu te peço
por esta obra encarnada
na carne cabra da peste
da Hygia Ferrreira bem casta
aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta
ave palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais Sagaranas
a morte em vidas severinas
tal qual antropofagia
teu Grande Sertão vou cumer
nem João Cabral severino
nem Virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer
a ferramenta que afino
roubei do mestre Drummundo
que o diabo giramundo
é o Narciso do meu Ser

pontal.foto.grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR


caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem –
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui
Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

ALGUMA POESIA
não.
não bastaria a poesia deste bonde
que despenca lua nos meus cílios
num trapézio de pingentes onde a lapa
carregada de pivetes nos seus arcos
ferindo a fria noite como um tapa
vai fazendo amor por entre os trilhos.

não.
não bastaria a poesia cristalina
se rasgando o corpo estão muitas meninas
tentando a sorte em cada porta de metrô
e nós poetas desvendando palavrinhas
vamos dançando uma vertigem
no tal circo voador.

não.
não bastaria todo riso pelas praças
nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
com os pardais despedaçando nas vidraças
e as mulheres cuidando dos seus filhos

não bastaria delirar Copacabana
e esta coisa de sal que não me engana
a lua na carne navalhando um charme gay
e uma cheiro de fêmea no ar devoradora
parentando realismo hiper-moderno
num corpo de anjo que não foi meu deus quem fez
esse gosto de coisa do inferno
como provar do amor no posto seis
numa cósmica e profana poesia
entre as pedras e o mar do Arpoador
mistura de feitiço e fantasia
em altas ondas de mistérios que são vossos

não.
não bastaria toda poesia
que eu trago em minha alma um tanto porca
este postal com uma imagem meio Lorca:
um bondinho aterrizando lá na Urca
e esta cidade deitando água
em meus destroços
pois se o cristo redentor deixasse a pedra
na certa nunca mais rezaria padre-nossos
e na certa só faria poesia com os meus ossos.

jazz free som balaio
para Moacy Cirne
gravada no CD fulinaíma sax blues poesia

ouvidos negros Miles trumpete nos tímpanos
era uma criança forte como uma bola de gude
era uma criança mole como uma gosma de grude
tanto faz quem tanto não me fez
era uma ant/Versão de blues
nalguma nigth noite uma só vez

ouvidos black rumo premeditando o breque
sampa midinigth ou aVersão de Brooklin
não pense aliterações em doses múltiplas
pense sinfonia em rimas raras
assim quando despertas do massificado
ouvidos vais ficando dançarina cara
ao Ter-te Arte nobre minha musa Odara

ao toque dos tambores ecos sub/urbanos
elétricos negróides urbanóides gente
galáxias relances luzes sumos pratos
delícias de iguarias que algum Deus consente
aos gênios dos infernos que ardem gemem Arte
misturas de comboios das tribos mais distantes
de múltiplas metades juntas numa parte


lady gumes african`s baby

ponho meus dedos cínicos no teu corpo em fossa
proclamando o que ainda possa vir a ser surpresa
porque amor não tem essa de cumer na mesa
é caçador e caça mastigando na floresta
todo tesão que resta desta pátria indefesa


meto meus dedos cínicos sobre tuas costas
vou lambendo bostas destas botas Neo-Burguesas
porque meu amor não tem essa de vir a ser surpresa
é língua suja e grossa visceral ilesa
pra lamber tudo o que possa vomitar na mesa
e me livrar da míngua desta língua portuguesa


Artur Gomes
In CArNAvalha Gumes – 1995






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