terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

adélia prado e outros poetas essenciais


BULHA

Às vezes levanto de madrugada, com sede,
flocos de sonho pegados na minha roupa,
vou olhar os meninos nas suas camas.
O que nestas horas mais se é: morre-se
Incomoda-me não ter inventado este dizer lindíssimo:
"ao amiudar dos galos". Os meninos ressonam.
Com a nitidez perfeita, os fragmentos:
as mãos do morto cruzadas, a pequena ferida no dorso.
A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais
porque ela falou comigo: "Acho que fica melhor com babado"
e r iu meio sorriso, embaraçado por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos
olhos
porque o vestido é azul e tem um laço ?
Eu bebo a água e é uma água amarga
e acho o sexo frágil, mesmo o sexo do homem.

Adélia Prado


A Solidão do Corpo

Na solidão,
o corpo pode gritar
ou fincar-se como um mastro,
que nem a dor e o alíseo vento
lhe trarão de volta a chave.

nada há de pélagos e escarpas
no senho do que se esculpiu de trevas,
antes,
é liso e verde como um fruto inteiro.

Parece que dorme.
Há um desalinho nos braços e cabelos.
As partes
despojadas sobre o branco pasto do lençol.

Parece de pedra
com sua andadura móvel nas calçadas
e um senho opaco em meio às roupas.

Um corpo só,
é como fruto na pirâmide:
- não vinga.

Se queima em seus desertos
e arde suas dormências,
mas não conhece reflexo.

É opaco
como se alheio às artimanhas nos telhados,
aos veludos na calçada
e alheio à luva sobre a chave.

Um corpo só,
é duro como a rocha
que não se penetra de espadas,
que não se penetra de falas,
que não se penetra de asas.


A um corpo só,
nem raios lhe abrem o riso,
nem seus cabelos dão ninhos.



Um corpo só,
é quando amadurece a própria morte.

Affonso Romano de Sant'anna


Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e

também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de olhar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)

que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços, e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, e os ventos altos

que não dormem, que te olham da janela,
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandonas e nem tu ao sono.

Ana Cristina César


Os ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Emvão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice ?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade


AMAR

Eu quero amar, amar perdidamente !
amar só por amar: aqui... além...
mais este e aquele, o outro e toda a gente...
Amar ! Amar ! E não amar ninguém !

Recordar ? Esquecer ? Indiferente !
Prender ou desprender ? É mal ? É bem ?
Quem disse que se pode amar alguém
durante a vida inteira é porque mente.

Há uma primavera em cada vida:
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz foi p'ra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... p'ra me encontrar...

Florbela Espanca


SÁTIRA

Que falta neste cidade ? Verdade.
Que mais por sua desonra ? Honra.
Falta mais que se lhe ponha ? Vergonha.

O Demo a viver se exponha,
Por mais que a fama exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste necroscio ? Negócio.
Quem causa tal perdição ? Ambição.
E no meio desta loucura ? Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu
Que não sabe o que se perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos ? Pretos.
Tem outros bens mais maciços ? Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos ? Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos ? Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas ? Guardas.
Quem as tem nos aposentos ? Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos
E a terra fica esfaimando
porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda ? Bastarda.
É gratias distribuída ? vendida.
Que tem que a todos assusta ? Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Bastarda, vendida, injusta.

Gregório de Matos

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